Todo mundo diz

 

Compra uma casa, menina, pra ter segurança pra vida toda. Escolha um bom homem pra chamar de seu – namoradinho, noivo, maridão, hoje, ontem ou pra sempre, tanto faz, desde que seja seu. Encontra um bom emprego, menina, para poder pagar a escola dos meninos e comprar o batom bonito na revista da Avon. Faça exercícios e se comprometa com o futuro de balzaquiana enxuta. Reze todos os domingos na capela, que Deus ajuda quem madruga.

 

Nem precisava disso tudo.

 

Bastava:

 

Encontre o caminho, menina, que te leve para onde você quer ir: amor no peito e dinheiro no bolso. O resto a gente dá um jeito.

Eu quero ser Wall-E

 

Eu já tinha me apaixonado pelo Wall-E desde que Renato Félix me chamou para ver um clipzinho de divulgação do filme, lançado alguns meses antes dele chegar aos cinemas. Sei lá por que. Mas o encontro com este amigo virtual – aquele que você já conhece muito bem, mas não encontrou pessoalmente ainda – não poderia ter sido melhor: só botou ainda mais lenha na fogueira da minha paixão. E depois daquela noite de sexta-feira, quando sai da sala do cinema, eu já estava quase pronta para casar com o robozinho.

 

Pois então: além de uma linguagem muito simples, que faz a gente nem sentir o longo tempo do filme em que não há um diálogo falado sequer, com Wall-E convivendo apenas com uma baratinha. E mesmo o cenário horripilante – um mundo, literalmente, coberto de lixo – ganha um pouco de poesia com a atitude positiva do rapazinho. Ele não pára de trabalhar para cumprir sua missão: limpa, limpa e limpa, do amanhecer ao pôr do sol. E nos dá uma lição do que é necessário fazer para tentar salvar este planeta.

 

Mas Wall-E não é apenas lindinho ou ambientalista. É também uma boa lição sobre aonde o consumo desenfreado, as relações meramente virtuais e a mecanização total do mundo podem nos levar, sem esquecer do que pode acontecer se a gente simplesmente achar que a responsabilidade não é nossa. E, no final das contas, a obra é a melhor mistura entre um bom filme de entretenimento com um excelente instrumento para discutir estas questões com qualquer tipo de público – crianças, jovens, empresários, educadores...

 

E como não dá para querer casar com Wall-E – até porque eu já tenho um futuro marido muito bem escolhido – o que me resta é tentar aprender com ele a ser um bom cidadão. E limpar pelo menos a sujeira que eu mesma faço. Vale conferir.

Marcamos

Só para quem é de casa.

Agendado: 25 de abril de 2009, às 17 horas, Igreja de São Pedro e São Paulo. Mas o branco é exclusivo da noiva!

Agora começa a novela da escolha dos 160 top top da nossa lista incrivelmente grande de pessoas queridas. E uma longa espera pelo grande dia, que agora já se sabe quando será.

Davi e Golias na TV brasileira

 

Digam o que quiserem, mas a única coisa que nunca saiu de moda no Brasil foi o Ibope. Entra estação e sai estação, tudo continua como antes: todo mundo se liga no que dá mais Ibope, criando um ciclo vicioso dos infernos movido pela crença de que “se todo mundo vê deve ser porque é bom”.

 

O Ibope tem o poder de dividir opiniões e ser execrado e acusado de démodé por quem está com poucos pontos de audiência, assim como quem está no topo costuma vangloriar-se de tal feito. Menos a Globo, que por ser hours concours desta disputa, “parece” nem se afetar pelos números.

 

Mas o brasileiro está mudando de hábito. Pelo menos era isso que garantia o convite enviado pela Rede Record aos convidados de uma grande festa promovida pela emissora na noite desta quinta-feira, dia 10. O motivo da festa? Ninguém sabia, mas já desconfiava. A Record está abocanhando a audiência da Globo no horário nobre do jornalismo. Não, eles não passaram na dianteira do Jornal Nacional, mas estão crescendo que é uma beleza. E já estão festejando com toda pompa possível!

 

Eu não sei onde isso vai parar. Primeiro foram as novelas. Agora a Record tem novela para todo gosto e horário, igualzinho ao que a Globo faz. Depois eles criaram o que minha irmã chama de “genérico para cada telejornal” da Globo. Até o Fantástico tem uma cópia bem acabada no canal do Edir Macedo. E não é de se espantar que o Jornal da Record esteja começando a se empolgar com a corrida para saber quem é o verdadeiro jornal nacional – desculpem-me o trocadilho infame, mas foi inevitável. O que esperar agora?

 

Como quem assiste a uma corrida de Fórmula 1, espero que o Felipe Massa consiga chegar na frente do Lewis Hamilton tantas vezes quantas for possível (esta é minha alegoria para aquele que está muito bem na batalha contra aquele que conta com o título garantido). Ver a Globo ser ameaçada, mesmo que de longe, por alguma emissora que não seja o SBT (que, por sinal, nunca foi tanto motivo de piada como atualmente) é sempre interessante para quem concorda que quase toda unanimidade é burra.

 

Esforços neste sentido não faltam. Apesar de estar apenas copiando o modelo Globo de fazer tudo, a Record parece-me estar fazendo direitinho a lição de casa, apresentando um jornalismo interessante e bem feito, inclusive visualmente. Até a Fabiana Scaranzi, a ex-moça do tempo global, já se bandiou para lá, sem falar num monte de outras gentes ainda mais competentes, como Paulo Henrique Amorim. E até mesmo a Ana Hickman, vejam só, não tem feito vergonha ao lado do novo Brito Júnior, que agora pode fazer piadinha no seu programa de estrondoso sucesso – que também começou como cópia da Ana Maria Braga, mas já provocou até mudança de diretor do programa global e se consagra hoje como a melhor opção das manhãs na TV brasileira. Interessantíssimo.

 

Resta-nos esperar o que mais vai acontecer nesta briga de Davi contra Golias sem que saibamos mais quem é quem – ah, estes paradigmas que, graças a Deus, teimam em ser inconstantes... Porque o Ibope, meus bens, este sempre continuará no auge.

Lavadeira urbana

 

Antes das 8h da manhã. Ela enfia as mãos no balde cheio de água e sabão, segura com alguma delicadeza o pano escuro e esfrega, esfrega, esfrega. Levanta o pano num sopapo, joga dentro de um balde menor com água limpa e sacode, sacode, sacode. Puxa o pano escuro da água limpa e torce, torce, torce. Lavar lençol leva tempo, dá trabalho e exige espaço para estender. Na falta de varal, ela soluciona rápido o problema: usa a grama como quarador e estica cada uma das quatro pontas do pano escuro sobre o verde amarronzado – choveu um pouco na madrugada e todo mundo sabe como fica a grama depois de alguma chuva.

 

Serviço feito, ela volta aos baldes, dispostos sobre um banco largo, e sem a menor cerimônia tira a própria blusa de mangas, expondo o corpanzil enorme e banhudo que sobra pelos cantos de um top cor de laranja. Fica só de saias e recomeça o ritual: esfrega, sacode e torce, da mesma forma truculenta e na mesma velocidade alucinante que usou com o lençol escuro. E depois estende a roupa no quarador embebido de lama da chuva de ontem.

 

Depois ela pega outro balde cheio de água limpa e derruba sobre si mesma. De nada serve uma roupa limpa sobre um corpo suado. Tira de um potinho o que vai se transformar em muita, muita espuma no cabelo, que depois, ainda molhado, é desembaraçado lentamente com um pente. O que resta da água se une ao sabonete para lavar as pernas e os pés calçados em uma havaiana – legítima!

 

Enquanto espero pacientemente pelo ônibus na Praça da Independência, ainda tive tempo de ver a lavadeira ali, a menos de cem metros, tirar de baixo da própria saia uma outra e começar tudo de novo...

Já vamos providenciar a placa

Lafi, um cão feroz - quem diria?

Por Redação Yahoo! Notícias

Qual é o cão mais feroz do mundo? Pensou nas raças pitt bull ou rottweiller? Então errou. De acordo com uma pesquisa feita pela publicação científica Applied Animal Behavior Science, e divulgada pela BBC, o cão mais feroz do mundo é o dachshund, mais conhecido como "cão salsicha". Segundo a pesquisa, um entre cinco "salsichas" já tentou atacar ou atacou estranhos, e um entre 12, já avançou nos próprios donos. O levantamento, feito com 6 mil donos de 30 raças de cães direfentes, constatou que as raças com mais tendência a atacar humanos são dachshund e chihuahua. Já os cachorros menos agressivos são os das raças golden retrievers, labradores, são bernardos, britanny spaniels e greyhounds.

As raças mais temidas, comos os pitt bulls e rottweillers, ficaram na média de agressividade canina contra estranhos. A má fama destas raças se dá ao fato de os ataques destes cães causam ferimentos mais graves, dizem os especialistas. E apesar de toda imponência das raças maiores, os pequenos cães costumam ser os mais agressivos. O que diferencia a pesquisa publicada pela Applied Animal Behavior Science das demais, é que ela não associa a agressividade canina necessariamente à mordida, informou a BBC.

Confira as dez raças mais ferozes:

1. Dachshund
2. Chihuahua
3. Jack Russell terrier
4. Akita
5. Pastor australiano
6. Pit bull
7. Beagle
8. Springer spaniel inglês
9. Border collie
10. Pastor alemão

A sagrada hora do almoço

 

O que é que se faz na hora livre do almoço?

Vai-se ao banco pagar contas ou fazer saques? Aproveita-se para olhar as vitrines em busca de um presente – mesmo e principalmente que seja para si mesmo? Ou simplesmente espicha-se as pernas no primeiro banco de praça que passa pela frente para esperar o tempo passar no ócio permitido no meio do dia?

Quem se acostuma a correr contra o tempo, mesmo que nunca tenha-se perdido da sua preguiça crônica, demora uma vida para saber o que fazer das horas vagas. E quando elas passam de raras a sistemátias, danou-se... 

Aguardo sugestões.

 

P.S. Durante os últimos três anos me acostumei a comer quase de pé para não perder tempo – eu sempre estava fugida do trabalho. E agora que tenho hora de almoço, não sei o que fazer com ela, vejam só. Ah, desaceleração que não chega nunca...

Doce Saudade

 

Era fim de junho. Então foi assim.

Acordei mais tarde que de costume, tomei o velho banho e coloquei uma roupa toda nova. Usei as últimas gotas do velho perfume – e me perfumei inteira. Segui no velho ônibus, e cheguei pronta para o último dia.

No anoitecer, preparei-me como todos os dias, mas não mais para a velha rotina – o que aguardava na manhã seguinte era mais que um novo dia, era uma vida nova...

A vida de repórter entrou, pela primeira vez, no baú das recordações.

E agora só resta uma doce saudade.

Milagres ou esforços?
 

Ubirajara Silva, aprovado no concurso do BB em Recife. O que ele tem de diferente?

Eu sempre acreditei em milagres. Mas acreditei (sempre) muito mais no resultado do esforço e determinação de quem precisa de um milagre. Deus ajuda quem cedo madruga, não é? A prova disso eu vi nesta manhã de sábado, no portal de notícias G1, diante da foto do recifense Ubirajara Gomes da Silva, aprovado na 136ª posição entre 171 classificados no concurso do Banco do Brasil para Recife. Acontece que Ubirajara mora há 12 anos nas ruas do bairro das Graças, na capital pernambucana, só conseguiu o diploma do ensino médio depois de fazer o supletivo e estudava nas praças e bibliotecas públicas através de apostilas e provas que ele acessava em locais que ofereciam internet gratuita. Aliás, foi assim que ele descobriu o edital deste e de outros quatro concursos que fez nestes últimos dois anos. Ele é O Cara. E não tem como não se comover com um exemplo de dignidade como este.

Eu sempre acreditei em milagres. Mas acreditei (sempre) muito mais na educação e no estudo como fonte de solução para todos os problemas deste país.

Meninas no espelho

Eu gosto de observar meninas se olhando no espelho. Não qualquer menina, mas aquelas que estão entrando na adolescência, que ainda têm um traço de menina de verdade, enquanto buscam no espelho a mulher que elas querem já ser. Dia desses uma dessas sentou-se ao meu lado no ponto de ônibus. Num início de tarde frio, onde tudo mais já seria contemplação, parei meus olhos nos cabelos lisos da menina calçada num all star e vestida em camisa de farda. Durante 15 minutos, enquanto eu esperava pacientemente meu ônibus, a menina tentou dar um jeito numa franja recém cortada. Puxou de dentro da mochila uma escova, que não dava jeito diante do pequeno e redondo espelho que insistia em mostrar “como ela estava feia com aquele cabelo horroroso”. E prendia com presilha, e soltava, e escovava, e arrumava com as mãos, sossegava, desistia, recomeçava, em um ritmo sem frenesi, com olhos que se dividiam entre o espelho e a direção de onde o seu ônibus também viria. Até que desistiu. E já que o vento frio insistia em desfazer tanto trabalho, abandonou os fios à própria sorte, guardando o espelho e a escova de volta na mochila. Foi quando meu ônibus chegou e, silenciosa, desconcentrei da menina.

Tem rapariga aí?

Por José Teles, com correções ortográficas deste blog

“Tem rapariga aí? Se tem, levante a mão!”. A maioria das moças levanta a mão.

Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, de todas as bandas do gênero). As outras são 'gaia', 'cabaré', e bebidas em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade.

O secretário de cultura Ariano Suassuna foi bastante criticado, numa aula-espetáculo, no ano passado, por ter malhando uma música da banda Calipso, que ele achava (deve continuar achando, claro) de mau gosto. Vai daí que mostraram a ele algumas letras das bandas de 'forró', e Ariano exclamou: 'Eita que é pior do que eu pensava'. Do que ele e muito mais gente jamais imaginou.

Pruma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá: Calcinha no chão (Caviar com Rapadura), Zé Priquito (Duquinha), Fiel à putaria (Felipão Forró Moral), Chefe do puteiro (Aviões do forró), Mulher roleira (Saia Rodada), Mulher roleira a resposta (Forró Real), Chico Rola (Bonde do Forró), Banho de língua (Solteirões do Forró), Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal), Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada), Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca), Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró), Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró). Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas.

Porém, esta 'esculhambação' não é culpa exatamente das bandas ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de 'forró', parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shorts começavam muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado, Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético. Pior, o glamour e a facilidade estética pegaram em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.

Aqui o que se autodenomina 'forró estilizado' continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista dessas bandas de 'forró', em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem 'rapariga na platéia', alguma coisa está fora de ordem. Quando canta uma canção (canção ?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é 'É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!', alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.

O que Isabela tem a nos dizer

Não se fala em outra coisa. A menina Isabella está em todos os noticiários, ocupando boa parte da programação televisiva e é hit entre sites de busca na internet. Meu namorado é meu principal mantenedor do novidades sobre o assunto, não perde nada. Sabe dos novos indícios, das provas achadas, do que cada depoente disse de novo, enfim, cada detalhe. Na TV, vejo mais: o que os acusados tomaram no café da manhã e o movimento às 7 horas da manhã na rua onde eles estão hospedados. Tudo. E parece que o assunto não tem previsão de quando vai sair da mídia.

Nada contra a cobertura que o caso está recebendo. Quem não se compadece diante de um crime tão  (sem palavras!), envolvendo uma menininha tão linda e filha de gente de classe média? Meu namorado tem uma boa razão para não se desligar do caso: ele mesmo tem um filho de seis anos que passa conosco os finais de semana, rotina parecida com a de Isabella. É muita identificação pro meu gosto, já que eu não tenho nada desta Ana-Carolina-madrasta-má-e-estressada que a imprensa está pintando por aí. Deus me livre! Mas ver alguém perder o filho numa situação como esta deve mesmo mexer com a revolta do meu namorado. Compreensível. E a mesma coisa acontece com boa parte dos brasileiros.

Acontece que Isabella não é a primeira nem será, infelizmente, a última criança a morrer em decorrência de maus tratos e violência doméstica. Só em 2007, pelo menos três crianças sofreram morte parecida enquanto 552 foram vítimas de seus próprios pais, que lhes deixaram lesões físicas e emocionais. E isto só na Paraíba, hein? Mesmo assim, estão são os casos que foram denunciados ao Disque 100, um serviço do Governo Federal, que não representa nem de longe a realidade que fica escondida por pessoas que temem – ou se eximem da responsabilidade de – denunciar.

São 552 Isabellas em potencial, minha gente, 552 crianças expostas à loucura de seus pais ou  parentes. Talvez algumas delas tenham chegado à mídia, mas provavelmente em nenhuma dos casos foi usado metade dos recursos que estão sendo vistos no caso Isabella. Provavelmente por serem pobres. E suas mortes correm o risco claro que ficarem por isso mesmo.

Ao invés de se prender aos detalhes inúteis do caso, talvez fosse mais produtivo aproveitar o momento para trazer à tona esta realidade terrível da violência doméstica e mostrar como os pais continuam sendo os principais carrascos das crianças deste país. E talvez a própria memória de Isabella fosse mais feliz se nos fizesse refletir sobre nossa responsabilidade como cidadãos sobre a situação em que estas crianças continuam vivendo. Aí, sim, teríamos pauta que recheasse com decência até mesmo o Super Pop, da Luciana Gimenez. Mas aí já seria pedir demais.

Consumo consciente pode reduzir lixo em 90%

Parei agora. Só recebo sacola plástica se for o jeito - mesmo! Elas demoram 450 anos para serem absorvidas pela natureza, minha gente! Bom, dizem que a cada matéria sobre meio ambiente que eu faço, fico mais neurótica, mas acho que meu trabalho serve pelo menos para isso: educar-me!

Mas, aos que se interessarem, confiram a matéria completa no Jornal da Paraíba deste domingo.

Felicidade Clandestina

Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim.”

(Felicidade Clandestina, Clarice Lispector)

Uma saída rápida e quando voltei para minha mesa de trabalho, lá estava ele. Sem pacote, sem cartão, sem sinal nenhum que ajudasse a antecipar uma surpresa. Simplesmente colocado de forma pouco cuidadosa sob o teclado do computador, como se tivesse sido esquecido e sem nenhuma importância tivesse. A um metro de distância reconheci as letras vermelhas na capa de “Minhas queridas” e nem sei que cara devo ter feito ao perceber que ele havia sido colocado, na verdade, cuidadosamente displicente para que, sim, eu mesma, achasse. Ele me pertencia. Era meu. Meu.

Semanas antes, foi assim. “Meu aniversário chegando e eu ainda nem tenho as cartas de Clarice”, disse encenando uma tristeza profunda e melancólica. Quem não se compadeceria? Eu não. O risinho já dava conta de que não era mais do que uma brincadeira – nunca fui boa atriz. Mas tem sempre alguém que – safadamente, como foi o caso – acredita. Sorte minha.

Depois da surpresa, saí de lá direto para um outro compromisso e, enquanto esperava ser atendida, sentada numa poltrona pouco confortável, folheei displicentemente o livro sentindo o cheirinho do papel novo. Cada página recebia o afago dos meus olhos, encantados com a linda diagramação, com a fonte usada nas palavras e com o facsimile das cartas escritas com a letra de Clarice. E fechei o livro como se quisesse esquecer daquela alegria só para poder senti-la de novo depois.

O resto do dia foi assim, com esperar por ônibus menos demoradas – lendo, finalmente, nem sentia o passar dos habituais longos minutos. Qualquer feixo de luz era suficiente para me ajudar naquele mergulho, concordando com Otto Lara Resende, para quem “ler as cartas de Clarice é como saborear garrafas de champanhe espumante”, seja no meio da tarde, no meio de uma praça, na espera pelo coletivo, na cabeceira da cama de uma noite insone e ansiosa por novas cartas...

P.S. Obrigada ao queridíssimo Láuriston, que me dedicou o presente antecipado com um “Para Cdarice, talento literal”.

P.S.2 É Cdarice, mesmo, com d, uma tentativa de reproduzir o som que ele emite quando me chama no meio do corredor.

O dia em que eu decidi conhecer Cuba

Eu era só uma adolescente que começava a acreditar que bastava mesmo "ser sincero e desejar profundo" para ser "capaz de sacudir o mundo" quando decidi que a viagem dos meus sonhos não era nem para a Disney, nem para a Europa, nem para o inverno entre Gramado e Canela. Eu queria mesmo era ir a Cuba. Queria ir na terra do Fidel e do Che.

Na verdade, na verdade, eu não sei direito onde é que isso começou. Deve ter sido entre a minha saída da escola e entrada na universidade, uma época em que eu andava muito envolvida com uma coisa chamada Pastoral da Juventude Estudantil (PJE), que indiretamente colocava na minha cabeça que a sociedade socialista era a coisa mais interessante do planeta. Enfim. Foi por aí que a turma resolveu fazer uma camisa com uma frase do Che Guevara que falava alguma coisa sobre a importância da educação ou do comportamento revolucionário. Juro que nem lembro mais.

O que eu me lembro mesmo é do fascínio que Cuba exerceu de forma definitiva na minha vida quando me debrucei sobre a biografia de Che. E em algum ponto desta história meio atrapalhada eu decidi (como já disse) que queria conhecer a ilha. Queria saber como era um lugar em que ninguém pode comer (mas come escondido) carne de boi, os americanos não são bem vindos e os carros são tão antigos quanto a Jovem Guarda, mas ao mesmo tempo as crianças estão na escola e todo mundo consegue ter atendimento médico quando precisa. Eu queria mesmo era saber como é viver em um lugar em que altos índices de educação e falta de liberdade convivem como irmãos siameses.

Juntei dinheiro para ir a Cuba, mas o sonho da casa própria engoliu meus caraminguás e a viagem, que também tomou conta dos sonhos do meu futuro marido, ficou para mais tarde – bem mais tarde. Mas hoje me arrependo um pouco. Sem Fidel, Cuba perdeu metade do sentido. Sem Fidel e seus discursos e também sem aquele ar ditatorial que devia pairar no país. E por isso eu esperei 20 dias para escrever sobre a renúncia de Fidel, que surpreendeu até os confinados do Big Brother. Quem me encorajou foi o Bruno Medina, que escreve o Instante Posterior.

P.S. Achei no meios dos livros do meu pai uma das poucas publicações sobre a ilha, intitulado "A história me absolverá", o histórico discurso de Fidel Castro depois do mal sucedido golpe, dois anos antes da Revolução Cubana. E prometo que depois de concluir a leitura trago minhas impressões.

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