Diplomas para quê?

 

Não deveria ser necessário ter diploma para ser advogado. Aliás, nem diploma, nem carteirinha da OAB, aquela que exige a aprovação em uma prova cada vez mais difícil e que aprova cada vez menos gente. Meu marido conhece bem as leis, estudou tanto para os concursos que fez nestes últimos anos, que é capaz de fazer análise de casos, indicar qual o remédio jurídico para o seu problema e seguir os trâmites que uma ação precisa seguir. Ele é administrador por formação, mas deveria ter o direito de assumir e assinar a própria defesa em processos que, porventura, venha a se envolver. Ou ganhar uma grana extra defendendo os amigos que também têm seus próprios problemas jurídicos.

 

Aliás, para ser juiz também não precisaria ter diploma. Bastaria, além do conhecimento das leis, ter bom senso, como era bem antigamente. Pronto. Pra quê diploma? Os cursos continuariam funcionando, mas o que valeria seria mesmo o conhecimento das leis, acessíveis a qualquer brasileiro.

 

Bom, essa não é a minha opinião, mas deve ser a da advogada do Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo (Sertesp), Taís Gasparian, autora da ação que pedia a extinção da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. A alegação de Taís é de que esta exigência é inconstitucional, já que a Constituição garante a liberdade de expressão e o livre pensamento a todo cidadão.

 

Segundo o G1, para ela, o jornalismo é uma profissão que não depende de qualificação técnica específica. “É uma profissão intelectual ligada ao ramo do conhecimento humano, ligado ao domínio da linguagem, procedimentos vastos do campo de conhecimento humano, como o compromisso com a informação, a curiosidade. A obtenção dessas medidas não ocorre nos bancos de uma faculdade de jornalismo”, afirmou a advogada.

Claro, Taís, assim como o conhecimento das leis brasileiras não é algo que se aprende necessariamente nos bancos da faculdade de Direito – assim como também nem sempre quem sai de lá sabe o que é ética e profissionalismo. Enfim, o argumento da advogada, que deve ter um diploma e ter sido aprovada no exame da Ordem (se não, não estaria brigando contra o diploma dos jornalistas) convenceu o STF. Agora, amigos, não há mais nenhuma obrigação de ter diploma para exercer funções de jornalista.

 

E como acima do STF só tem Deus – que tem muito mais o que fazer no céu e na terra – o que nos resta é contar com o bom senso das empresas de comunicação deste país, para que continuem primando pela qualidade de seus conteúdos e não se enredem nesta conversinha fiada. Ou então, daqui a pouco vamos ver a turminha que ganha concursos de redação no ensino médio de gravador em punho exercendo seu direito de livre expressão e entrevistando autoridades para as matérias dos veículos que abrirão mão desta prerrogativa.

 

Salve-se quem puder!

 

P.S. Mas como tudo tem um lado bom, que se cuidem os medíocres!

Os editais que ninguém lê

Ok, me digam, por que as pessoas não lêem edital?

 

Assim... O mundo está em crise e as oportunidades de emprego não são coisa que se encontra em toda esquina. Em alguns setores, como o público e as ONGs (as sérias, pelo menos), as seleções de pessoal são sempre regidas por regrinhas básicas contidas nos editais. No segundo caso (nas ONGs), os documentos, em geral, não passam de duas laudas, mas contam t-o-d-o-s os detalhes do processo seletivo, geralmente simplificado, inclusive e principalmente sobre os procedimentos para a candidatura.

 

E por que as pessoas não lêem?

 

Elas preferem gastar os minutos/créditos do seu telefone, ligar para a entidade que abriu a vaga e perguntar tudo que já está lá – bastava ter lido! Ou então elas fazem tudo errado – mandam currículo sem formulário de inscrição, mesmo que o edital diga claramente que “currículos sem formulários não serão aceitos”. E isso só para ficar nos exemplos mais simples...

 

Só para explicar: isso pega mal pra burro! Um profissional que se candidata a uma vaga e sequer lê o edital já começa perdendo pontos. E ainda corre o risco de simplesmente perder tempo. Recentemente, uma das entidades onde trabalho selecionava um profissional que precisava ter necessariamente experiência em uma determinada área e o que se viu foi que metade dos candidatos sequer teve contato com o assunto. Não leu o edital e mandou a inscrição assim mesmo. Em outra seleção, as pessoas ligavam reclamando que não acharam o formulário no site, quando o próprio site diz “mande a solicitação do formulário para o e-mail tal”. Convenhamos...

 

Portanto, caros colegas que estão em busca de um lugar ao sol: leiam, leiam, por favor, leiam! Pelo menos o edital ou as informações disponíveis sobre a vaga oferecida (e isso vale para qualquer empresa do mundo). Isso demonstra respeito pela instituição e perspicácia na atuação. Isso aumentará suas chances de ter algum sucesso.

Lições de vôo

Hoje tive que quebrar o galho dos meus tios e pegar meu primo-afilhado na escola no meio do dia e a fugida do trabalho acabou me rendendo mais que uns bons minutos de conversa com o pequeno Gabriel. Percebi que ainda há muito o que aprender nesta vida – e nada de filosofias aqui, mas apenas questões práticas. Aos 29 anos eu não sei bem ainda quando terei filhos, acabei de casar e me tornar uma dona de casa, só fui meia dúzia de vezes ao supermercado fazer feira (duas delas depois do casório) e quase nunca precisei cozinhar de verdade. Portanto...

 

Sobre filhos:

* É preciso montar uma operação de guerra para garantir que você estará livre e em condições de deixar e pegar seu filho na escola nos horários certos sem deixar o pequeno morrendo de fome ou sozinho;

* Ao chegar na escola, é necessário examinar a criança da cabeça aos pés em busca de sinais de violência;

* Se achar um destes temidos sinais, é preciso perguntar na mesma hora à professora o que houve e conversar com o pequeno para saber se ele apanhou de graça ou tem culpa no cartório (no caso do afilhado, quase sempre é ele quem puxa briga);

* Você vai precisar responder perguntas fofas com respostas contrariadas, como dizer não quando o pequeno pergunta todo doce se você vai ficar com ele ao chegar da escola (“Tu vai subir, vai?”).

 

Sobre a casa:

* É preciso estabelecer rotina para quase tudo, se não você corre o risco de ficar sem pão para comer, com lixo guardado na área de serviço ou com um gato com fome por falta de ração;

* Dias de sol em pleno inverno exigem que se coloque roupa na máquina e se encha todos os espaços possíveis na casa com roupa secando;

 

Sobre o supermercado:

* Fazer uma lista de compras não vai adiantar nada se você não sabe bem quanto gasta de cada coisa em determinado período;

 

Sobre a cozinha:

* O sal é o segredo de tudo, mas pode destruir uma receita (mas se for assim, é melhor que seja pela falta do que pelo excesso!).

Discurso pra lá de atrasado

"O amor da gente é feito o Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector, que começa no meio de uma frase. Não tem um começo muito nítido, um marco inicial e nem se sabia amor naquele tempo. O fato é que o tempo passou e só depois de cinco anos pudemos colocar uma placa de inauguração: 25 de novembro de 2005.

 

E nem lá a gente sabe direito como foi. Só sabe que foi assim: EJC de Santana, final de deserto, “vamos dar uma chance pra essa história?”, “vamos!”. E a gente marcou como começo, mesmo só tendo começado de verdade e se tornado público outro tempo depois. Mas pergunta quando...

 

Daí o namoro em algum lugar do tempo, que também não se sabe bem quando, virou noivado. Ninguém pediu ninguém em casamento. Ninguém propôs, mas os dois aceitaram. E quando já era tão óbvio para os dois, compramos as alianças e marcamos de novo o noivado como começo de uma nova parte: 2 de junho de 2007, uma noite de chuva e recheada da alegria dos poucos que testemunharam o brinde com champanhe presenteado pelo dono do restaurante.

 

Mas ninguém parece ter levado aquilo muito a sério, mesmo a gente querendo que a nova marca fosse 25 de outubro de 2008. E, no final das contas, esta seria a data em que se encerraria uma outra parte do meio deste longo caminho: abrimos as portas da casinha de paredes cor de palha, lá no Treze de Maio, no dia em que queríamos estar casando. Conformados com as sábias demoras de Deus, meses antes tínhamos adiado o novo marco. Agora seria 25 de abril de 2009. E faltavam nove meses que, nossa!, passaram correndo até chegar o nosso dia: hoje. E lá vamos nós começar tudo de novo...

 

Aliás, o nosso dia sempre foi esse: hoje. Porque é em cada “hoje” que a vida tem nos dado uma oportunidade de colocar na cabeça de uma vez por todas que, sim, nascemos um para o outro. Mesmo com nossas cabeças duras, com nossas teimosias, com nossas manhas e manias esquisitas, não tem jeito: nascemos um para o outro.

 

E agora? Bom, agora é tempo de render graças ao Deus que nos uniu, ao Deus que tornou possível essa equação quase impensável de dois servos que caminhavam para caminhos opostos, mas que hoje seguem o mesmo rumo. Agradecer por todas as Suas providências que nos fizeram sobreviver a cada problema e por todas as surpresas que colocou nos nossos dias. É tempo de realizar o sonho mais lindo que Deus sonhou...

 

Mas também é tempo de comemorar, de abraçar o máximo de amigos possível para acumular o tantão de amor e alegria que cada um trouxe para esta noite e de comer apenas um pouco de bolo para não irmos ainda mais gordos para as piscinas naturais de Porto de Galinhas. E o que nos resta? Agradecer por você fazer parte desta história, que assim como o Livro dos Prazeres, também não tem final..."

 

P.S. A gente queria ter contado esta história no dia da festa, mas o texto impresso ficou (em duas vias!) esquecido no bolso do paletó do noivo - e a gente só lembrou quando estava arrumando as coisas para sair em lua-de-mel. Para não perder a inspiração... é pra isso que serve um blog!

5 coisas que aprendi em menos de 20 dias

1) Definitivamente, os melhores amigos da mulher moderna e sem grana para bancar uma secretária do lar são: a máquina de lavar, o micro-ondas e o aspirador de pó. E, claro, um excelente diarista com DNA perfeccionista. Dá até para se sentir uma super dona de casa!

 

2) Depois de casar, você vai se tornar em alguém muito mais parecido com sua mãe do que você gostaria. E vai se ver fazendo todas as coisas que achava uma bobagem quando ainda morava com ela.

 

3) Morar em apartamento dá trabalho, sim, senhor.

 

4) Mais importante do que mais um jogo de servir sobremesa, daqueles que “vão durar a vida toda”, é um bom varal de roupas desmontável e que, montado, caiba na varanda. Por isso, meus próximos presentes de casamento serão tão práticos quanto sem graça. E esperarei os noivos agradecerem efusivamente um mês depois da festa.

 

5) A maior alegria de uma pessoa recém casada é chegar em casa. Na sua casa.

Nosso lindo balão azul

Vocês lembram do padre que morreu, como diz minha espirituosa irmã, de balões de ar?  Pois é, isso aconteceu há um ano em Santa Catarina e provocou uma onda de perplexidade e piadas em todo o Brasil.

 

Agora um outro velhinho deve chamar a atenção do mundo por sair voando por aí com seus balões. Só que dessa vez, a história deve ter um final feliz, já que trata-se do longa de animação UP, que será exibido hoje na abertura oficial do Festival de Cannes e conta a história de Carl, um velhinho de 78 anos que perde a mulher e decide voar para a América do Sul amarrando milhares de bexigas coloridas em sua casa.

 

Eu fiquei encantada com a história e com as imagens divulgadas do filme, que não sei se já tem data para estrear no Brasil (meninos da Cultura, alguma informação?). Mas se vem com a assinatura de quem também fez Monstros S.A. e Wall-E (minhas duas animações preferidas entre os modernetes), acho que vale a pena esperar.

Multimídia

Dizem que jornalista tem que entender de tudo um pouco. Inclusive de fazer uma boa pesquisa antes de escrever sobre determinda coisa, o que nos faz parecer ainda mais inteligentes e cultos - a maioria apenas se esforça. É por essas e por outras que a gente acaba conseguindo conversar relativamente bem, passando um mínimo de vergonha possível, com quase qualquer pessoa no mundo - de Bill Gates ao Dalai Lama. Alguns/mas coleguinhas, no entanto, se saem bem melhor nesta brincadeira. Mas isto aqui já é uma safadeza.

Vai para o Guiness

A barra de vestido de noiva mais fotografada da história.

25 de abril

 

25 de abril de 2009. Um dia de sol perfeito. 16h40, a chuva cai. Lá dentro do salão, não me abalo. Havia uma alegria tão tranquila dentro de mim que nem isso me tirou do prumo. Só me atrasou. 15 minutos. Na porta da igreja, vejo um céu azul acinzentado que nem de longe me pareceu triste. Foi o fim de tarde chuvoso mais lindo que já vi na vida.

 

E às 17h30, braços dados com o homem mais nervoso da igreja, ao ouvir a doce voz de Maria Juliana, entrei com o pé direito no lindo templo de São Pedro e São Paulo – o santo da chuva e o santo comunicador da boa nova (isso sim é ironia, Alanis Morissete!). Lotada de tantas carinhas queridas, não vi ninguém. Meus olhos seguiam em ângulo reto na direção do altar: era o rapaz de gravata prateada que eles procuravam, com um olhar de felicidade totalmente novo.

 

Diante do abraço apaixonado de meu pai, me desejando felicidade ao me entregar a (até então) futuro marido, percebi que caminhei a vida toda para viver aquilo. Tudo mais era pretérito mais que perfeito. “Antes de você chegar, era tudo saudade...” – ah, a voz de Maria Juliana...

 

E o depois? Cada palavra do meu agora ainda mais querido Padre Ivônio caiu com perfeição num coração que parecia já ter estourado a cota de felicidade de um ano em apenas cinco minutos. Cada detalhe do ritual, cada olhar que nos lançava, me fazia ter certeza: eu estava sendo abundantemente abençoada.

 

Foi perfeito. Tão lindo, mas tão lindo que até meus sonhos se surpreenderam. Uma benção completa, uma cerimônia em que eu senti com plenitude a presença de Deus realmente nos tornando um. E uma emoção que de tão indescritível, parece às vezes que foi apenas um sonho. De repente, no meio do dia, me dou conta: “não é que foi verdade?”

 

Ao restrito grupo de amigos que estiveram lá, não tenho palavras para descrever, mas tento: obrigada!

Aos queridos que não estavam lá, mas torceram e ficaram felizes com nossa alegria: obrigada!

A Deus, que desviou tão radicalmente meu caminho para que ele se encontrasse com o de Michel: minha vida. Só com ela posso retribuir o que recebi naquele fim de tarde chuvoso que transformou minha história.

 

P.S. Na foto, o presente da Shamar: Rita e Manu, vocês ajudaram a tornar esta noite inesquecível. Obrigada ainda é pouco, muito pouco. Mesmo assim, obrigada.

Os benditos sonhos

A coisa mais engraçada são os sonhos. Sempre são eles que anunciam uma fugida da sua capacidade de manter a calma – "foi ali tomar os gorós na esquina, não sabe se volta, mas deve voltar".

Eu mesma estou naquela de acordar no meio da noite e dizer para mim mesma “que diabos de sonho é esse?”. Tudo dá errado nos benditos: a roupa, os convidados, as flores. Só não me foge o noivo – esse nem em sonhos fugiria.

 

Mas agora é minha irmã, posando de demoiselle dedicada em garantir que meus dois olhos estarão maquiados de forma harmônica no grande dia, que também deu para sonhar. “Aline, tive um sonho: dava tudo errado!”, revela com ar de desespero-aliviado-que-era-só-um-sonho.

“As pessoas estavam comendo antes da cerimônia (quem come antes da festa?!?), você circulando e conversando com todo mundo, eu te colocando para dentro (menina, você tem que ficar guardada!) e tu saindo de novo, meu cabelo desarrumado, eu descalça... Tudo errado.”

Nem nas noites de maior ansiedade consegui ser tão criativa. Eu hein!

Meu cabelo é marrrom

Eu tenho uns amigos muito inteligentes. Na verdade, de alguns eu me digo amiga só para “me sentir” porque nem sei direito se eles assim me consideram. Eles todos entendem de muito de alguma coisa: arte, história, ciência... Eles são “os caras” e vira e mexe uma pergunta deles me deixa sem resposta à altura.

Uma vez um deles, o poeta Astier Basílio, perguntou por que cargas d’água este blog se chama assim. “Por que ‘Meu Cabelo é Marrom’?”. Dei uma resposta qualquer que pela sua cara não o satisfez.

 

Vejamos. Em seu blog, Instante Posterior, o ex Los Hermanos Bruno Medina fala de sua vida “extra ordinária”. Na verdade nem é isso. O cara fala de cultura pop e eu gosto do que ele escreve, mesmo nem sempre tendo repertório suficiente para acompanhar suas discussões (assim como acontece com outro inteligente que eu chamo de meu amigo, o Cananéa). Mas não é disso que quero falar. É que acho a descrição que o G1 fez do seu espaço virtual perfeitinha pro incompreendido “Meu Cabelo é Marrom”. Por que?

 

Eu não tenho hobbies. Houve um tempo em que eu lia muito e escrevia mais ainda, mas hoje o tempo é outro, cada vez mais curto e dedicado à sobrevivência. Por isso, entendo pouco de muitas coisas, especialista em generalidades, como diria meu pai (outro inteligentíssimo com conteúdo pra esbanjar num blog bacanérrimo e que agora é colunista no jornal A União). Escrevi sobre cultura durante alguns meses na minha coluninha semanal no Jornal da Paraíba, mas a brincadeira era mesmo um olhar despretencioso. Não conheço tão profundamente sobre nada para justificar uma coluna nem um blog.

 

É que eu sou tão ordinária, no sentido amplo da palavra... Quando nasci com o castanho claro no cabelo, que na vida adulta “amarronzou” - e agora, vejam só, começa a “esbranquiçar” – a vida me dizia: menina, dedique-se ao conhecimento para poder sair desta deste mar de pessoas iguais. Eu tentei. Juntou com a cara comum – que merece um outro post – e pronto. Acabei virando uma adulta “extra ordinária”, que inventou de escrever um blog e não conseguiu pensar em algo que lhe fosse mais peculiar. Contradição? Identidade! Não que signifique muito, mas...

 

E agora, saindo da faixa dos 20 e tantos anos, entrando oficialmente na vida adulta ao mu casar, elegi uma prioridade para a vida: quero ser mais do que um cabelo castanho. Quero ter razões para que este espaço tenha outro nome – mesmo que ele nunca mude de cara.

 

Sugestões?

É abril

Enfim, é abril.

 

E há tão pouco para ser feito – quase tudo pronto, convites entregues, providências tomadas, presentes chegando. E há tanto para ser resolvido – ah, essa mania da gente de repente sentir saudade do que há tempos quer deixar pra lá.

 

Ontem mesmo fui parar na casinha nova quando deveria ir para a velha-atual-para-sempre casa dos papis. Confusão de fim de um dia todo atrapalhado. E este ir-e-vir torna-se cada vez mais cansativo e desejoso de parar, mesmo que nos últimos dias eu me pegue me perguntando “será que isso vai parar mesmo?”.

É que casar é um rompimento sem brigas, mas não sem conflitos. Porque aqui dentro de mim mora o conflito de quem quer, mais do que tudo, ir de vez para o lado dos olhos castanhos de futuro marido, mas também tem uma certa melancolia de deixar o quarto de solteira com todos os barulhos que não me deixam dormir (mãe que acorda cedo e fala alto, pai que acorda cedo e escuta música alta), todos os livros que li e não li, as estrelas do mar penduradas na parede há anos.

 

Mas o caminho é sem volta, é trem já de partida, é quase já pintada a primeira mecha do cabelo com aquela cor diametralmente oposta ao natural. Não tem jeito, é hora de ir.

 

E aí, no meio de tudo, começar a organizar aos poucos a mudança – mas cadê coragem?

 

“Acelera menina, que você já começa maio de endereço novo!”

Fora do padrão

É a sensação de que não estamos falando a mesma língua:

 

Situação 1

Eu, sete ou oito meses atrás: “Moça, quero um vestido de noiva beeem leve”.

Atendente padrão de loja de aluguel de vestidos, com sorriso de quem vai atender a t-o-d-o-s os seus desejos: “Ah, temos um aqui bem leve, só precisa usar uma saia de armação.”

Eu, com cara de “não estou sendo clara”: “Não moça, a senhora não entendeu: eu quero um vestido leve (agora fazendo cara de “leve do contrário de pesado”), meio esvoaçante, se possível”.

Atendente com cara de “agora entendi”: “Ah, sim, temos um aqui, veja só...” (volta com vestido esvoaçante e preso ao chão por uns dois quilos de pedrarias).

Eu, com cara de “desisto”, agradeço e vou embora.

 

Situação 2

Proprietário de loja e aluguel de vestidos, diante da mesma pergunta, com ar soberbo: “Não existe vestido assim. Noiva não é assim. Noiva é glamourosa e glamour exige vestido pesado e muita pedraria.”

Eu, com cara de “desisto”, apenas dou as costas e vou embora.

 

Situação 3

Proprietária de salão de beleza, ao olhar meus curtos e cacheados cabelos, com a certeza de ter a solução para todos os meus problemas: “Ah, a gente boa um mega hair e seu cabelo fica lindo!”

Eu, com cara de “como-assim?!?”: “Não, querida, meu cabelo É curto, É cacheado e é ASSIM que ele vai estar no casamento. Ou você não quer que meus convidados me reconheçam?” (já quase perdendo a paciência)

Cabeleireira, com cara de pena de mim: “É... é mesmo uma questão de gosto...”

Eu, com cara de que “só não vou embora porque estou aqui profissionalmente”, fico – mas não volto mais.

 

Situação 4

Eu, quase satisfeita por ter achado alguém que quase entendeu o que eu queria: “E sua maquiagem aguenta choro?”

Proprietária de salão de beleza, com ar de professora de etiqueta: “Mas vai chorar por que se é festa? Ah, chorar é muito brega...”

Eu, já calejada e com paciência zero: “Ah, amiga, pois eu sou um cafuçú e não vou deixar de me emocionar só porque alguém acha que é brega. (sempre com um sorriso de simpatia) No meu casamento eu posso tudo – até ser brega se eu quiser.” (só faltou o “tou pagaaaando!”)

 

Situação 5

Conhecida certa de que vai ser convidada: “Ah, mas tu vai mandar fazer bem casado, não vai?

Eu, com cara de “quem és tu, criatura?”: “Não, não vou. Pense num negócio caro!”

Conhecida, ainda crente de que estava na lista: “Mas casamento sem bem-casado não tem a menor graça.”

Eu, já calejada e com paciência zero: “Pois é melhor você nem perder seu tempo...”

P.S. Claro que acabei não resistindo e encomendando alguns bem-casados, mas a gatinha continua fora da lista.

 

Conclusão: se você não está afim de fazer parte do padrão estabelecido pelo mercado, prepare-se para enfrentar uma tourada!

It´s like rain on your wedding day

Então foi assim: fomos assistir ao show de Alanis Morissette no Chevrolet Hall, na última sexta-feira, dia 30, em Recife, a bordo de uma excursão recheada de gente com as mais variadas expectativas para a noite. E o que segue aqui não é um texto jornalístico, mas um relato apaixonado de quem chorou ao ouvir a voz da canadense cantar mansinho e quase a capela “but you, you´re not allowed, you´re uninvited...”. Por isso, considerem os devidos descontos.

 

A noite começou cedo, saindo às 18h de João Pessoa, chegando às 20h em Recife e esperando até que Alanis subisse ao palco às 23h30. Neste meio tempo, a ansiedade, euforia e excitação deram lugar a um cansaço sem tamanho, uma vontade de dormir deitada no chão mesmo e um quase pedido para ir embora. Ah, também teve a “alegria” de tomar banho de chuva antes de entrar, de comprar ingresso inteiro quando não estavam pedindo a carteira de estudante de quem comprou meia, de constatar que os preços no bar eram estratosféricos e que não havia comida decente que abastecesse nossos estômagos durante a espera. Ok: batata frita e orloff ice para passar o tempo. E que longo tempo...

 

Mas foi o choro quase contido ao ouvir Uninvited que lavou o cansaço, me transportou no tempo e me fez esquecer o que havia acontecido nas quatro horas anteriores ao show. Alanis provocou aquela mesma reação enérgica e quase colérica que eu experimentava ao ouvir You Oughta Know quando era apenas uma adolescente de 16 anos. E, feito um bando de loucas, eu, Giselle e Juliana (sem elas, teria sido apenas metade!) entramos no coro do Chevrolet Hall lotado quando a gaita anunciou All I Really Want – sob os olhos compreensivos de futuro-marido, que se não desistiu de mim naquela noite, não desistirá nunca mais.

 

O resto é história. Alanis envelheceu, está com visual e rosto mais maduros. Mas não perdeu a energia do começo da carreira e continua pulando no palco como nos tempos das camisas surradas e do cabelo desgrenhado. É uma mulher nova com a boa e velha essência rock n´roll. E para mim bastava.

O show mistura bem composições de seus vários discos, mas quem é fã de Jagged Little Pill não voltou para casa decepcionado: todos os clássicos estavam lá – e mais alguns. Graças à dedicação de Michel, que pesquisou o som da moça para curtir melhor o show ao meu lado, acabei reconhecendo algumas músicas novas e fui apresentada a outras.

 

O resultado é o show mais lindo que já vi na vida – e podem dizer que esta opinião é carregada demais de paixão porque é mesmo. Até as partes chatas são bonitas. A iluminação provoca alucinações – pra que gastar dinheiro com química? – e o som estava bom para estes ouvidos leigos. E até mesmo o público recheado de tiazinhas como eu e minhas amigas, tiozões de cabelos brancos, patricinhas, casais homo e emos a torto e à direita parece ter se transformado numa coisa só. Lindo demais!

 

Desejei que o amigo Cananéa tivesse estado lá para ouvir sua opinião. Mas, ah!, independente disso, foi uma noite para entrar na história: por ter-me carregado no tempo, por ter-me permitido realizar um desejo que nunca ousei fazer, por ter sido melhor do que todas as expectativas...

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