Eu tenho uns amigos muito inteligentes. Na verdade, de alguns eu me digo amiga só para “me sentir” porque nem sei direito se eles assim me consideram. Eles todos entendem de muito de alguma coisa: arte, história, ciência... Eles são “os caras” e vira e mexe uma pergunta deles me deixa sem resposta à altura.
Uma vez um deles, o poeta Astier Basílio, perguntou por que cargas d’água este blog se chama assim. “Por que ‘Meu Cabelo é Marrom’?”. Dei uma resposta qualquer que pela sua cara não o satisfez.
Vejamos. Em seu blog, Instante Posterior, o ex Los Hermanos Bruno Medina fala de sua vida “extra ordinária”. Na verdade nem é isso. O cara fala de cultura pop e eu gosto do que ele escreve, mesmo nem sempre tendo repertório suficiente para acompanhar suas discussões (assim como acontece com outro inteligente que eu chamo de meu amigo, o Cananéa). Mas não é disso que quero falar. É que acho a descrição que o G1 fez do seu espaço virtual perfeitinha pro incompreendido “Meu Cabelo é Marrom”. Por que?
Eu não tenho hobbies. Houve um tempo em que eu lia muito e escrevia mais ainda, mas hoje o tempo é outro, cada vez mais curto e dedicado à sobrevivência. Por isso, entendo pouco de muitas coisas, especialista em generalidades, como diria meu pai (outro inteligentíssimo com conteúdo pra esbanjar num blog bacanérrimo e que agora é colunista no jornal A União). Escrevi sobre cultura durante alguns meses na minha coluninha semanal no Jornal da Paraíba, mas a brincadeira era mesmo um olhar despretencioso. Não conheço tão profundamente sobre nada para justificar uma coluna nem um blog.
É que eu sou tão ordinária, no sentido amplo da palavra... Quando nasci com o castanho claro no cabelo, que na vida adulta “amarronzou” - e agora, vejam só, começa a “esbranquiçar” – a vida me dizia: menina, dedique-se ao conhecimento para poder sair desta deste mar de pessoas iguais. Eu tentei. Juntou com a cara comum – que merece um outro post – e pronto. Acabei virando uma adulta “extra ordinária”, que inventou de escrever um blog e não conseguiu pensar em algo que lhe fosse mais peculiar. Contradição? Identidade! Não que signifique muito, mas...
E agora, saindo da faixa dos 20 e tantos anos, entrando oficialmente na vida adulta ao mu casar, elegi uma prioridade para a vida: quero ser mais do que um cabelo castanho. Quero ter razões para que este espaço tenha outro nome – mesmo que ele nunca mude de cara.
Sugestões?
Enfim, é abril.
E há tão pouco para ser feito – quase tudo pronto, convites entregues, providências tomadas, presentes chegando. E há tanto para ser resolvido – ah, essa mania da gente de repente sentir saudade do que há tempos quer deixar pra lá.
Ontem mesmo fui parar na casinha nova quando deveria ir para a velha-atual-para-sempre casa dos papis. Confusão de fim de um dia todo atrapalhado. E este ir-e-vir torna-se cada vez mais cansativo e desejoso de parar, mesmo que nos últimos dias eu me pegue me perguntando “será que isso vai parar mesmo?”.
É que casar é um rompimento sem brigas, mas não sem conflitos. Porque aqui dentro de mim mora o conflito de quem quer, mais do que tudo, ir de vez para o lado dos olhos castanhos de futuro marido, mas também tem uma certa melancolia de deixar o quarto de solteira com todos os barulhos que não me deixam dormir (mãe que acorda cedo e fala alto, pai que acorda cedo e escuta música alta), todos os livros que li e não li, as estrelas do mar penduradas na parede há anos.
Mas o caminho é sem volta, é trem já de partida, é quase já pintada a primeira mecha do cabelo com aquela cor diametralmente oposta ao natural. Não tem jeito, é hora de ir.
E aí, no meio de tudo, começar a organizar aos poucos a mudança – mas cadê coragem?
“Acelera menina, que você já começa maio de endereço novo!”
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